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Crônica do escritor José Eduardo Agualusa comenta ameaça feita pelo presidente dos Estados Unidos, o condenado narcisista maligno Donald Trump, de exterminar a civilização iraniana.
- por José Eduardo Agualusa
O que ontem era impensável torna-se hoje discutível. Amanhã, aceitável. Finalmente, inevitável. É esse o perigo do discurso trumpista
Suponham que, num momento de perigosa insensatez, decide servir-se das vossas redes sociais para ameaçar um vizinho: “Fulano morrerá esta noite para nunca mais ser ressuscitado.”
Teria problemas com a Justiça. Sérios problemas.
Agora, imaginem que é o presidente dos EUA. Dispõe de poder para arrasar um país, recorrendo a armamento nuclear. E escreve isto nas redes sociais, referindo-se ao Irã: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada.”
Uma afirmação como esta, produzida por quem tem meios para cumpri-la, não pode ser lida como mera retórica, uma metáfora cruel, o irresponsável descuido de um senhor idoso, já um pouco senil. Tem de ser interpretada como o primeiro movimento de uma coreografia genocida. Não descreve uma possibilidade — aproxima-a do real.
Mais inquietante do que a brutalidade da frase é a brandura com que o mundo reagiu a ela.
É certo — o Papa protestou. Greta protestou. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, mostrou-se muito preocupado. George Clooney, mais rigoroso, chamou-lhe um crime de guerra: “Se alguém diz que quer acabar com uma civilização, isso é um crime de guerra. Você pode apoiar pontos de vista conservadores, mas deve haver uma linha de decência, e não pode ser cruzada.”
Linha de decência, George?! Estamos falando de um presidente da República que se comunica através de palavrões e baixo calão, insulta os jornalistas que se atrevem a colocar-lhe questões mais difíceis, usa o cargo para enriquecer, e, convém lembrar, foi condenado por abuso sexual ainda antes de ser eleito.
Donald Trump não se limitou, uma vez mais, a troçar da decência. Cometeu um crime, sim, um abominável crime de guerra. Num mundo normal, não anestesiado por anos de intimidade com o feroz surrealismo da extrema direita global, o escândalo seria unânime. A carreira política do atual inquilino da Casa Branca terminaria naquele triste parágrafo.
O que ocorreu, ao invés, foi um sobressalto breve, e logo o mundo regressou à sua tépida indiferença. A frase permaneceu — como permanece uma mancha de sangue —, já integrada no padrão. Mais uma. Apenas mais uma.
Aprendemos a aceitar o excesso. A linguagem, levada ao limite, não fere mais. É como um ruído demasiado alto, que o ouvido recusa.
Quanto maior a violência anunciada, mais irreal parece. Ora, a irrealidade, o absurdo, não exige resposta. Contudo, é assim que a História avança. Não na sequência de rupturas súbitas, mas por uma lenta deslocação do tolerável. O que ontem era impensável torna-se hoje discutível. Amanhã, aceitável. Finalmente, inevitável. É esse o perigo do discurso trumpista. Não tanto por aquilo que afirma, mas por aquilo que permite. No caso, permite que a ideia do genocídio circule sem consequências. Que se teste o limite. Que se meça a paciência da plateia. E a plateia, queridos leitores, é paciente.
Então, a coreografia prossegue, um pequeno passo hesitante, depois um segundo mais firme. E nós, espectadores atordoados, vamos aprendendo a reconhecer os movimentos sem, todavia, abandonar a sala.
O Globo
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